Marcello José Abbud, referência em tecnologias inovadoras para tratamento de resíduos sólidos urbanos e diretor da Ecodust Ambiental, acompanha uma transformação que começa a redesenhar a gestão de resíduos nas cidades brasileiras mais avançadas: sensores, algoritmos e plataformas digitais estão sendo incorporados a sistemas de coleta, triagem e monitoramento que até pouco tempo operavam de forma inteiramente manual. A promessa das cidades inteligentes chegou ao setor de resíduos, mas o que ela entrega na prática ainda está aquém do que o discurso tecnológico costuma anunciar.
O conceito de smart city aplicado à gestão de resíduos envolve, em sua forma mais desenvolvida, lixeiras com sensores que avisam quando estão cheias, caminhões com rastreamento em tempo real que otimizam rotas dinamicamente e plataformas que cruzam dados de geração com variáveis urbanas para antecipar demandas. Na realidade, esse ecossistema já opera em cidades como Amsterdã, Seul e Singapura. No Brasil, os componentes aparecem de forma fragmentada e a integração entre eles ainda é rara.
O que os sensores e o rastreamento já mudaram na prática?
A tecnologia com maior penetração atual nos sistemas municipais brasileiros é o rastreamento por GPS de frotas de coleta. Municípios que implementaram esse recurso relatam reduções de 15% a 25% no consumo de combustível, queda no número de reclamações por coleta não realizada e maior capacidade de fiscalização dos contratos com operadoras privadas. O dado em tempo real sobre onde cada caminhão está e quanto já coletou permite ajustes operacionais que antes dependiam de relatos manuais e inspeções presenciais.

Conforme destaca Marcello José Abbud, sensores de nível em lixeiras públicas, tecnologia já comum em cidades europeias, começam a aparecer em projetos-piloto em algumas capitais brasileiras. Na prática, o impacto é direto: rotas de coleta deixam de ser fixas e passam a responder à demanda real, evitando que caminhões percorram trajetos completos para recolher lixeiras semi-vazias enquanto outras transbordam. Em cidades com alta variação de geração por bairro e por período do ano, esse ajuste dinâmico pode reduzir significativamente os custos operacionais.
Onde a tecnologia ainda não resolve o problema?
O erro mais comum nos projetos de cidades inteligentes aplicados a resíduos é tratar a tecnologia como substituto para problemas de gestão que são essencialmente humanos e institucionais. Sendo assim, sensores não resolvem a falta de motoristas capacitados, algoritmos de otimização de rota não funcionam quando a frota está subdimensionada e plataformas de monitoramento não substituem contratos bem estruturados com metas claras e mecanismos de fiscalização efetivos.
Marcello José Abbud e a equipe da Ecodust Ambiental observam esse padrão com frequência: municípios que investem em tecnologia sem antes resolver os fundamentos operacionais da coleta obtêm dados melhores sobre um sistema que continua funcionando mal. A tecnologia amplifica o que já existe, para o bem e para o mal. Onde a gestão é sólida, ela gera ganhos expressivos. Por outro lado, onde os problemas são estruturais, ela os torna mais visíveis sem necessariamente resolvê-los.
O dado como ativo estratégico na gestão de resíduos
Saber exatamente quanto lixo cada bairro gera, em que composição e em que horários permite planejar infraestrutura com precisão muito maior do que estimativas baseadas em médias populacionais. Esses dados também são essenciais para estruturar projetos elegíveis a financiamento climático, que exigem métricas concretas de impacto ambiental. Dessa forma, Marcello José Abbud identifica na qualidade dos dados municipais sobre resíduos um dos maiores ativos que uma cidade pode construir para melhorar sua gestão ambiental e ampliar o acesso a recursos para infraestrutura.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez